ÍNDICE
- QUEM SOMOS?
- OS DESAFIOS DE LUTAR DIANTE DOS ESCOMBROS
- JUVENTUDE ECOSSOCIALISTA OU EXTINÇÃO!
- CONSTRUIR UM PROGRAMA ECOSSOCIALISTA PARA AS UNIVERSIDADES E IMPEDIR O FIM DO MUNDO
- AS UNIVERSIDADES NA LUTA CONTRA O GENOCÍDIO NEGRO: QUEREMOS O FIM DAS POLÍCIAS E LIBERDADE PARA NOSSA JUVENTUDE!
- PEDAGOGIA CRÍTICA E POPULAR PARA ENFRENTAR O CAPITALISMO!
- NEM CONCILIAÇÃO, NEM MIGALHAS: A BATALHA POR UMA UNIVERSIDADE EMANCIPATÓRIA
- UNIVERSIDADES PRIVADAS E A HIPER-MERCANTILIZAÇÃO DO ENSINO: PELO FIM DA EDUCAÇÃO REGIDA PELO CAPITAL!
- RUMO À RUPTURA: O BRASIL ALÉM DO CAPITAL E DA CONCILIAÇÃO
- O MOVIMENTO ESTUDANTIL SERÁ TRANSFEMINISTA OU NÃO SERÁ
- POR UMA UNIVERSIDADE ANTIRRACISTA! POR UMA CIÊNCIA PRETA E À SERVIÇO DAS CLASSES TRABALHADORAS!
- LUTAR POR UM ANTI CAPACITISMO ANTICAPITALISTA!
- ECOSSOCIALISTA, ANTI-STALINISTA, INDEPENDENTE E DEMOCRÁTICA: A OPOSIÇÃO DE ESQUERDA QUE QUEREMOS PARA CONSTRUIR A UNE QUE PRECISAMOS!
1. QUEM SOMOS?
O coletivo Ecoar é uma organização de juventude ecossocialista, feminista, antirracista, antiLGBTIfóbica e anticapacitista. Surgimos em 2020 da necessidade de criar uma ferramenta política que ecoe, a partir da tradição marxista revolucionária, a defesa de um programa de transição ecossocialista.
Sabemos que essa tarefa não é exclusiva da juventude, nem mesmo apenas dos movimentos e organizações políticas brasileiras. Mas o enorme potencial transformador da juventude nos lançou o desafio urgente de cativar corações e mentes dispostos a puxar o freio de emergência e contribuir para barrar o fim do mundo. Esse é um esforço que marca nossa estratégica e nossas intervenções de maneira permanente, em todos os cantos.
Diante desse desafio, no contexto do Congresso da UNE, é crucial ressaltar que a tarefa de organizar a juventude brasileira vai além dos limites do movimento estudantil, superando as expectativas quanto ao alcance de nossas vozes. Temos conosco camaradas que constroem movimentos culturais, ambientais, antiproibicionistas, abolicionistas, antimanicomiais, de moradia, movimentos feministas, antirracistas, antiLGBTIfóbicos e onde mais couber juventude.
Por outro lado, o reconhecimento do papel fundamental dos movimentos de educação na luta de classes mundial, sobretudo na América Latina, não passa despercebido por nós. A construção de uma educação emancipadora é uma prioridade para nossa luta. Assim como dela plantar sementes das lutas ecossocialistas que enraizem no solo fértil da organização política da educação brasileira nas universidades e escolas.
Se nossos ecos são amplos, também não estão restritos ao presente. Nossos passos vêm de longe. Como sugeria Walter Benjamin, nos nutrimos do espírito de redenção, da memória, de pessoas que foram exploradas e oprimidas ao longo da história. As vozes destas pessoas que antes sofreram no passado nos entrecortam, nos enlaçam, nos direcionam. Por isso, partimos de algum lugar, ou melhor dizendo, de alguns lugares, de origens plurais que desejam um mesmo horizonte: a emancipação.
Deste ponto de vista, temos clareza de que não sustentamos um dogma, mas defendemos um marxismo aberto, crítico e autocrítico. Plural, como as vozes que nos dão razão de ser. Um marxismo vivo e forjado no calor das lutas, que nos ajude a elaborar nossa própria visão de mundo, da perspectiva das pessoas exploradas e oprimidas. Um marxismo que seja sobretudo um instrumento de análise da realidade e um guia para a nossa ação. O que só pode existir em meio ao livre debate de ideias e vinculado à prática comum e coletiva.
Esta tese é nossa contribuição para o 60º Congresso da UNE. Com ela, fazemos um chamado para estudantes e jovens que querem superar a inércia e construir outro futuro possível.
2. OS DESAFIOS DE LUTAR DIANTE DOS ESCOMBROS
O movimento estudantil no Brasil e na América Latina tem uma tarefa crucial, que contribui com o dinamismo das lutas em defesa de melhores condições de vida e para a emancipação humana. A experiência social única que este movimento proporciona constrói potencialidades singulares para formação de militantes anticapitalistas e para consolidação de diversas lutas que extrapolam os limites da pauta em defesa da educação.
Por isso, nesse contexto de múltiplas crises, o movimento estudantil nacional e internacional se depara com desafios complexos e urgentes.
Sem apelo alarmista e combatendo o negacionismo climático, é preciso ter em mente um diagnóstico essencial: a crise do capitalismo se agrava e se configura, modula, enquanto vivemos uma grave crise ecológica que já ameaça a continuidade da vida humana no Planeta Terra, com os riscos atrelados a isso crescendo constantemente.
No ano de 2024, a temperatura média do planeta superou o aumento de 1,5Cº quando comparada aos níveis pré-industriais. Os efeitos são sentidos no dia-a-dia das pessoas e atingem, prioritariamente, as populações pobres, não-brancas (no Brasil principalmente populações negras), as mulheres e pessoas LGBTIA+. Cada vez mais se torna impossível de protelar a necessidade de organização da educação e da juventude brasileira e mundial para construção de uma possibilidade de futuro.
O Acordo de Paris, o tratado internacional sobre mudanças climáticas firmado em 2015, não apresenta caminhos para solucionar a questão. A prova disso é que se suas metas fossem cumpridas, o planeta aqueceria 1,5Cº até 2100, o que já representaria o cenário de graves transformações que estamos vivendo – ou seja, trata-se da normalização do pesadelo presente sendo tratado como uma vitória. Mas o mais catastrófico é que, em momento algum, chegamos perto de implementar as medidas de mitigação para alcançar os marcos desse Acordo.
Os próprios acordos de mitigação e sustentabilidade patrocinados pelas classes dominantes sempre foram alvo de denúncias feitas, de forma solitária, por ecossocialistas. Até mesmo estratégias de ESG (Ambiental, Social e Governança), alvo de muitas críticas, empregadas por grandes corporações, e as práticas de greenwashing têm sido preteridas em favor da intensificação da barbárie.
Drill, baby, drill. Esse foi um dos slogans de campanha de Donald Trump, fascista que retornou à Casa Branca este ano, após vencer o pleito de 2024. Era dedutível a perseguição contra mulheres, imigrantes, pessoas negras e LGBTIA+, como foi o caso da prisão e ameaça de deportação do jovem Mahmoud Khalil, um ativista refugiado palestino, aluno da Universidade de Columbia. Entretanto, é importante se atentar que os planos de Trump vão além. Ele também quer cavar mais petróleo, em uma campanha abertamente antiambientalista de acesso a novas fontes de combustíveis fósseis a fim de potencializar a economia estadunidense. Cumprindo sua promessa de campanha, Trump retirou os Estados Unidos (novamente) do Acordo de Paris, o que reforça seu absoluto compromisso com os rumos de destruição global do Planeta Terra. Outras lideranças fascistas, como o argentino Javier Milei, anunciam acompanhar Trump nesta política. Para nós, que vivemos o bolsonarismo, as lembranças sombrias retornam: mais que as contradições antiambientais próprias dos que acham possível administrar socialmente o capital, essas figuras possuem uma pulsão de morte e um sadismo singulares, almejando a destruição planetária como um objetivo.
Nosso país é alvo do imperialismo estadunidense, da sanha chinesa por recursos, e até mesmo das, supostamente, progressistas social-democracias escandinavas, que exploram, e muito, a nossa natureza.
No epicentro da crise climática, sendo o país com a maior biodiversidade e com a maior floresta tropical do mundo, a classe trabalhadora brasileira sofre com a piora em suas condições de vida, com a combinação entre a piora nas condições naturais e sociais.
A importante derrota de Jair Bolsonaro, que foi conquistada com a participação de organizações socialistas e revolucionárias, levou à ascensão, novamente, de Lula e do PT à Presidência da República, cheios de promessas de melhora na vida da população. Entretanto, o que testemunhamos é um governo refém da burguesia, do Centrão e dos interesses conservadores que impedem avançar nas pautas mais caras às pessoas que sofrem com a exploração e a opressão.
O governo iniciou sua jornada cedendo às pressões do neoliberalismo, com a implementação do Novo Arcabouço Fiscal, um redesenho tosco do Teto de Gastos de Michel Temer e Henrique Meirelles. Sua implementação gerou exatamente os efeitos que imaginávamos: uma amarração dos investimentos públicos e recorrentes contingenciamentos em serviços que garantem direitos à população. Juntamente a isso, o governo não enfrenta a sanha especulatória do agronegócio, responsável direta pelo encarecimento no preço dos alimentos, que já mina a popularidade do governo e hipertrofia as narrativas de extrema-direita.
Uma das expressões disso é a exploração de petróleo na foz do Amazonas, a chamada Margem Equatorial, localizada na costa do Amapá. Assumindo uma postura abertamente negacionista e descredibilizando os pareceres dos técnicos do Ibama, o governo arma pressões públicas para que a exploração seja liberada, em nome, supostamente, do desenvolvimento regional. É extremamente irônico que esse processo esteja ocorrendo bem no ano em que o Brasil – a Amazônia – sediará a COP/30, em Belém (PA).
Nem mesmo a “defesa da democracia”, mote unificador da eleição de Lula em 2022, uma resposta ao golpismo bolsonarista, avança de maneira adequada. Vale lembrar que o governo vetou menções críticas ao golpe de 1964 no ano passado, 2024, quando este completava 60 anos. O vácuo foi ocupado pelos militares, que utilizaram a data para festejar a sua tão amada “Revolução Redentora”. Um escárnio para um governo que se apresenta como a alternativa democrática para o Brasil atual.
Claro que o mar de contradições do petismo não é novidade do período recente. Os governos anteriores de Lula e Dilma Rousseff foram permeados por vários processos que atingiram negativamente a classe trabalhadora, que fortaleceram setores da burguesia e que fragilizaram o quadro ecológico do Brasil.
Foi implementada uma estratégia de conciliação de classes, em que o petismo amansava as lutas sociais, subtraindo muito de sua radicalidade, promovia a manutenção dos pilares do projeto neoliberal do Brasil e, em contrapartida, garantia algumas melhorias na vida de setores da classe trabalhadora.
Essas melhorias se davam através de pequenas entregas às pessoas exploradas e oprimidas, na forma de políticas públicas. Ocupando uma parte muito pequena do orçamento – minúscula se comparada ao que é pago aos rentistas nos aportes da dívida pública –, essas políticas garantiram algumas mudanças nas condições de vida dos setores mais pobres da classe trabalhadora. Parte da popularidade do lulismo se dá por estas políticas.
No entanto, a política conciliatória, também gera efeitos negativos de longo prazo, com o endividamento massivo da população em razão de políticas sociais baseadas essencialmente no fornecimento de créditos. A lógica do acesso a crédito como ferramenta de emancipação, inclusive, ultrapassou o incentivo ao consumo, no projeto petista de conciliação de classes, atingindo a própria educação, com políticas de mercantilização do ensino.
Nós, setores revolucionários, acreditamos que as políticas conciliatórias têm limites claros – e isso se comprovou no processo de crise do petismo que culminou na deposição golpista de Dilma Rousseff. Quando a conjuntura força o cinto a ser apertado, é a classe trabalhadora a sacrificada.
O que vemos agora é que a aposta de Lula e do PT nesta mesma conciliação não tem conseguido, sequer, entregar os resultados limitados do passado. A conjuntura agora é outra, por alguns fatores.
Primeiro pela autonomia formal do Banco Central, aprovada pelo bolsonarismo em 2021, que mina qualquer controle do governo sobre a política monetária. Embora, é importante frisar, o petismo sempre tenha garantido a manutenção de políticas ortodoxas quanto à moeda e os juros em suas administrações, mesmo sem que essa autonomia fosse implementada. Essas políticas, na prática, significam priorizar a segurança dos títulos de dívida para os rentistas em detrimento de políticas que garantam emprego e comida para a classe trabalhadora. O segundo ponto é a nova relação entre o Congresso e o Poder Executivo. Com o estabelecimento das emendas impositivas ao orçamento por parte do então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, o Congresso ampliou os seus poderes e tem agora menos interesse e necessidade de formar coalizões com o governo. E, por último e mais importante, a crise do capital impõe processos irreversíveis que o governo não consegue mitigar com suas políticas públicas limitadíssimas. O tempo de alguma viabilidade para as conciliações se foi.
Em meio a essa crise global que não pode ser solucionada por meio do capitalismo, vivemos um drástico aprofundamento do sofrimento para a população brasileira, com a nossa classe experienciando cotidianamente condições sub humanas de existência. Não se tem garantia de alimentação, moradia, saúde, educação ou segurança.
As condições de trabalho para a juventude manifesta sua pior face operando pela lógica da divisão internacional do trabalho num cenário de terra arrasada que aloca pessoas jovens em condições de empregabilidade cada vez mais precárias. Se a pressão do exército industrial de reserva já exercia sobre nós a necessidade de aceitação dos mais frágeis vínculos de trabalho, hoje, a uberização, a pejotização e a terceirização, são formas legais que aprofundam a piora das condições materiais de subsistência. No Brasil, enquanto país da periferia do capital que carrega o traço da superexploração do trabalho, assume níveis ainda mais complexos e profundos dessa precarização.
Os setores petistas não estão demonstrando comprometimento com o efetivo combate à realidade posta e com o cumprimento dos desafios colocados para nossa geração. Enquanto se espera posturas mais contundentes do governo, que não emite qualquer sinal de que um dia virão a existir, o fascismo cresce, ocupando o imaginário da classe trabalhadora com suas falsas soluções. Se queremos verdadeiramente impedir o retorno do fascismo, não devemos oferecer como resposta a “defesa de tudo o que há”, como o petismo tem feito. O que está posto não nos serve. Precisamos ser os organizadores da radicalidade e alçar voos maiores.
Esta é a tarefa que a conjuntura, cada vez mais perigosa e acirrada, nos impõe. Os tempos de paz e conciliação não irão voltar, e nem mesmo esse passado era tão pacífico assim. Os nossos estão morrendo de calor, de frio, de fome e nas mãos da polícia. Lutamos por ecossocialismo, porque não queremos a barbárie. E nunca a vimos tão de perto, tão estrondosa em seus sinais. Precisamos encará-la com coragem, organizar a luta e, a despeito do que nos diz esse sistema, dar o sentido de que vale a pena lutar para construir um mundo novo, de que vale a pena lutar pela vida.
3. JUVENTUDE ECOSSOCIALISTA OU EXTINÇÃO!
O ecossocialismo é uma corrente aberta, de ação e pensamento. Nutrida pelas principais iniciativas históricas, políticas e teóricas das classes oprimidas para compreender e impedir o colapso ecológico planetário que estamos vivendo.
Nós, do Ecoar, compomos uma tradição de marxistas revolucionáries internacionalistas da IV Internacional, que há décadas reivindicam a centralidade da questão ecológica para o socialismo. Não por outra razão, nosso coletivo é fundado sobre um programa ecossocialista revolucionário.
Para nós, ecossocialismo não é apenas uma pauta, um setor ou um termo para quando falamos de meio ambiente. O ecossocialismo é estruturante, está em nossos métodos, em nossa democracia e é a estratégia para conquistar nossa emancipação. É a base para nossas reivindicações, para nosso programa e orienta todas as nossas táticas.
A necessidade de um ecossocialismo se funda na própria realidade material. As múltiplas crises que estamos inserides – a ecológica, social, política, cultural, econômica, migratória, militar – se desenvolvem em uma verdadeira crise civilizacional. Os pilares fundamentais da civilização capitalista moderna industrial estão em cheque e a maior expressão disso é o colapso planetário ecológico.
Vivemos em um país que se encontra majoritariamente na zona intertropical que será palco da maior parte dos efeitos apocalípticos da crise ecológica em curso. A desertificação de biomas, o aumento do nível do mar e os eventos climáticos extremos já são uma realidade.
Já ultrapassamos diversos pontos de não retorno e estamos nos aproximando perigosamente de outros. Alguns processos, como a desertificação da Amazônia, não poderão ser contidos quando ultrapassarem esses pontos, a própria inércia do planeta vai se encarregar de terminar o que o capitalismo começou.
O tempo é mais escasso do que já aparentou. A expectativa é que estamos na última década em que conseguiremos efetivamente realizar mudanças que podem diminuir significativamente esse cenário catastrófico. Mais do que nunca, uma política de sobrevivência, humanista, que coloque a sobrevivência da espécie no centro é essencial.
Não podemos nos enganar acerca das causas das mudanças climáticas: o capitalismo é a causa. Durante mais de 100 mil anos, a humanidade viveu em harmonia com os processos naturais da Terra. Apenas com a produtividade, o produtivismo e o acúmulo capitalistas é que os impactos da ação humana alcançaram dimensões planetárias. A revolução industrial é o meio, mas o capitalismo é o sistema que impulsiona um crescimento infinito, a produção desenfreada e desarrazoada de mercadorias e o acúmulo nas mãos de poucos em detrimento do sofrimento da extensa maioria.
Nós, ecossocialistas, defendemos uma outra perspectiva civilizacional. Não um mundo baseado na posse e nas mercadorias, mas em uma abundância sustentada nos valores de uso, na satisfação das necessidades básicas e na garantia das condições para o pleno desenvolvimento humano. Para isso, é necessário quebrar o mundo capitalista para dar espaço para outros mundos.
Defendemos um programa de transição, que unifique as necessidades imediatas das classes trabalhadoras com a necessidade da construção de uma revolução ecossocialista. Para tal, precisamos de iniciativas que nos ganhem tempo e que fortaleça a organização das classes despossuídas, de modo que a retomada da organização em sindicatos e no movimento estudantil é essencial. A organização de parcelas cada vez maiores para a constituição de maiorias sociais, essas capazes de realmente mudarem o mundo.
É preciso que, desde hoje, protejamos o máximo possível a natureza que ainda resta. Principalmente, criando e fortalecendo outras formas de interação entre a humanidade e natureza, diferente da capitalista. A agroecologia, a reforma agrária e o desmantelamento das cidades capitalistas é essencial para que isso seja possível.
Nós, jovens, estamos em um lugar especial nesse processo todo. Não só estamos atives nos processos políticos de nosso tempo, como, também, ainda estaremos nas próximas décadas. Viveremos o completo colapso climático ou precisaremos lidar com as formas de enfrentá-lo.
Seremos nós a acabar com o capitalismo ou seremos a última geração da espécie.
É necessário que tomemos as rédeas do processo, que moldemos, com as nossas necessidades, dentro do nosso tempo, um programa de transição ecossocialista. É preciso lutar contra as falsificações, tanto de um impossível capitalismo verde, quanto de um socialismo produtivista que nos levará para a ruína da mesma sorte.
Construir, desde hoje, nas universidades, escolas, cidades, campos e biomas a juventude que vai ser a vanguarda ecossocialista. Que derrubará o capitalismo a tempo de impedir o completo colapso climático do planeta.
Contra a barbárie capitalista! Por uma sociedade de abundância em equilíbrio com a natureza! Ecossocialismo ou extinção!
4. CONSTRUIR UM PROGRAMA ECOSSOCIALISTA PARA AS UNIVERSIDADES E IMPEDIR O FIM DO MUNDO
Se algum dia foi possível duvidar da magnitude dos impactos das mudanças climáticas, esse tempo há muito passou. É um consenso dentro dos mais variados campos científicos que as mudanças climáticas estão alterando todos os aspectos de nosso planeta, atingindo diversos pontos de não retorno e encaminhando-se para um colapso sistêmico.
Até o momento, todas as previsões foram mais otimistas do que a realidade. Como já dito, neste ano confirmou-se o aumento de 1,5ºC da temperatura média desde o período pré-industrial, enquanto a meta de esforços internacionais como o Acordo de Paris era a de só alcançar essa marca em 2100. O oceano está subindo de nível, biomas estão se desertificando e as catástrofes causadas por um maior desequilíbrio no ciclo de nitrogênio ainda são desconhecidas.
Para além das dimensões das mudanças e das tragédias desencadeadas pelos efeitos climáticos extremos, o fator temporal também precisa ser considerado. Grande parte das principais mudanças já começaram e a maior parte dos pesquisadores aponta que provavelmente teremos uma situação de completa catástrofe entre os próximos 15 a 25 anos. Essa urgência está no centro do nosso programa e das nossas ações nos movimentos que construímos.
Nenhuma adaptação ou mitigação vai impedir cidades e até países inteiros de ficarem embaixo d’água. Ou de toda uma camada da crosta terrestre – talvez a maior parte – ficar desertificada e infértil para a cultura de alimentos necessários para a sobrevivência da enorme maioria da população. E a principal causa das mudanças climáticas é o capitalismo.
Existe uma contradição incontornável, o capitalismo é um sistema de crescimento infinito e exponencial alocado em um planeta finito, que está se exaurindo. É nesse contexto que o Manifesto Ecossocialista¹, aprovado pela direção da Quarta Internacional e discutido no Congresso Mundial em fevereiro deste ano, apresenta a formulação do decrescimento material global no contexto de um desenvolvimento desigual e combinado, que merece holofotes em nossas lutas por apontar saídas para barrar o caos climático.
No estágio atual do capitalismo e da degradação crescente do planeta, não bastará enumerar e criticar os negacionismos climáticos. É preciso imprimir nas mais diversas lutas e intervenções o programa de transição ecossocialista, a partir das particularidades sócio-históricas e experiências organizativas do Brasil e da América latina. É hora de propor e construir o que querem os ecossocialistas para educação, para saúde, para o trabalho e para economia.
Frente a essa realidade, nós jovens ocupamos um papel de extrema relevância para a esperança de um mundo ainda habitável para os seres humanos. Primeiramente, nós somos a geração que já está ativa politicamente e que irá experienciar as décadas mais agudas de colapso climático.
Em segundo lugar, já estamos física e psicologicamente profundamente afetades pelos impactos das mudanças climáticas e com maior capacidade de formular e agir sobre. Com isso em vista, é essencialmente nossa a tarefa de combater não os efeitos, mas as causas das mudanças climáticas.
Uma grande parte da juventude está nas universidades. É comum o movimento estudantil ocupar um papel de vanguarda, articulando setores, grupos e pessoas com interesses materiais comuns dentro da juventude. Nossa história está recheada de exemplos disso no Brasil, América Latina e no mundo. Se em outros momentos os principais desafios do movimento estudantil eram de enfrentar a ditadura militar, hoje é o de enfrentar o colapso climático.
Em nossa compreensão, mais do que nunca, é necessário construir um programa ecossocialista para as universidades brasileiras. Esse programa deve se amparar numa perspectiva ecológica crítica e profundamente humanista. É necessário que a nossa ciência se volte para duas principais tarefas nessa trincheira:
- Criar condições para uma educação ambiental crítica e libertadora, com pontes entre diferentes saberes e que ajude a desmistificar relações capitalistas que apagam a ligação do sistema com as mudanças climáticas.
- Buscar soluções para problemas da sociedade, afetada pelas mudanças climáticas – e não produzir tecnologia para a iniciativa privada, criando mais e mais formas de poupar trabalho, se apropriar da natureza e gerar lucro.
Para que isso seja possível, precisamos retomar lutas históricas adormecidas e armá-las com as percepções críticas de nosso tempo.
É necessário voltar a debater ensino crítico, reformular currículos de forma cada vez mais interdisciplinar e transversal, principalmente nos temas ligados à ecologia. Revisar a pesquisa e a extensão, preenchê-las de sentido, voltá-las para os interesses sociais e consolidar uma verdadeira conexão da comunidade pedagógica com o seu entorno.
Também é preciso afastar as perspectivas privatistas que vêm cercando as universidades. Se quem está financiando as pesquisas são gigantescos conglomerados bilionários – os maiores poluentes e causadores das mudanças climáticas – como as universidades servirão à sociedade? Quem paga a banda escolhe a música!
Para além dessa mudança de rumo, os espaços físicos das universidades devem ser repensados. Cada vez mais, elas devem cumprir o importante papel de serem fortalezas disponíveis para uso diário e em episódios de eventos climáticos extremos. Não estamos falando somente de climatização adequada para discentes, mas de locais que possam ser acessados por toda a comunidade, principalmente as mais vulneráveis, como pessoas em situação de rua.
Precisamos de reformas e novos prédios. Que o acesso e o uso dos espaços da universidade sejam repensados e o enorme potencial de descentralização das universidades seja aproveitado para criar cada vez mais formas coletivizadas de suportar os grandes desafios que estão por vir.
É claro que, em última análise, a universidade, enquanto uma instituição própria do capitalismo, não tem como assumir programa ecossocialista, pois a sua essência terá limites impostos e interesses contraditórios que vão se contrapor a isso.
Um programa ecossocialista para as universidades é uma aposta na grande capacidade que a juventude, o movimento estudantil e ciência têm que se tornar um farol para um outro mundo. Um farol que aponte não para o progresso destrutivo que está empurrando toda a humanidade para o precipício, mas para o decrescimento, para a agroecologia, para a harmonia com a natureza, preservação do modo de vida de comunidades tradicionais e povos originários. Em outras palavras, uma universidade que cumpra seu papel na defesa da humanidade em contraposição ao capitalismo.
Isso só será possível com todo um conjunto de pautas que defendemos para a educação: acesso universal, condições de permanência que garantam a dedicação exclusiva ao estudo e trabalho universitário, democracia interna para que esse programa avance nas universidades e uma revisão orçamentária que consiga garantir as mudanças estruturais que almejamos são alguns exemplos. Um programa ecossocialista para as universidades não se contrapõe ao que até agora defendemos para as universidades, mas faz atualizações importantes para adequar nossas lutas ao nosso tempo histórico e às principais necessidades de hoje.
5. AS UNIVERSIDADES NA LUTA CONTRA O GENOCÍDIO NEGRO: QUEREMOS O FIM DAS POLÍCIAS E LIBERDADE PARA NOSSA JUVENTUDE!
Se nosso futuro está ameaçado pelo fim do mundo, o nosso presente também é atacado por uma política de segurança pública racista e genocida, responsável por interromper a vida da juventude preta e trabalhadora.
A dor e o sofrimento marcam a nossa história, de invasão de terras e massacre dos povos originários, de sequestro, escravização e tortura de pessoas negras. Com a abolição formal da escravização, o Estado brasileiro encontrou novas formas de consolidar um controle social para impedir revoltas contra a opressão e a exploração capitalistas.
Vivemos um aprofundamento da violência provocada pelo Estado e as organizações criminais. Compreender o uso do Estado penal, cada vez mais ramificado com a milicianização dos territórios, está no centro de nossas tarefas, inclusive para compreender a ascensão do bolsonarismo nos últimos anos.
Para chegar ao atual cenário, foi necessário que a burguesia consolidasse o protagonismo militar na política nacional, bem como o avanço de um arcabouço jurídico-normativo que os protegesse de qualquer responsabilização por seus atos. O que inclui desde as Forças Armadas, essenciais para a tentativa de golpe que vivemos no 8 de Janeiro, até a Polícia Militar, a instituição que exerce diretamente o controle repressivo e a política genocida que trata como descartáveis as vidas da juventude preta e periférica.
Tudo isso faz parte da formação da sociedade brasileira e vemos inúmeros avanços tecnológicos que aprofundam o terror promovido pelo Estado. Precisamos nos organizar à altura para enfrentá-lo.
A falsa “guerra às drogas” se consolida como um dos principais aspectos ideológicos dessa política. Sob a justificativa de enfrentamento ao crime organizado e ao tráfico, a polícia sobe morros e invade casas de trabalhadores em todo o país, impede crianças de frequentarem as escolas e assassina a juventude preta brasileira.
Tudo isso só é possível por meio da disseminação midiática de que as drogas são o grande mal dos nossos tempos, assim como a juventude negra cotidianamente é apresentada como o inimigo da sociedade. É a partir desse discurso hegemônico que vemos o avanço de políticas vigilantistas, como a implementada no estado de São Paulo com o Muralha Paulista de Tarcísio, que, por meio de tecnologias racistas de reconhecimento facial, tem o objetivo de prender mais e mais pessoas pobres.
Vemos como tarefa primordial do nosso tempo a luta contra a atual política de drogas, que é a base para permitir a continuidade de um massacre histórico.
A alternativa que apresentamos precisa ser a da legalização. Uma legalização ecossocialista, feminista e antirracista, que tenha a ousadia de nomear o capital como o verdadeiro inimigo do nosso povo, de arrancar a emancipação da nossa juventude e garantir a liberdade para cada pessoa encarcerada pela falsa guerra às drogas.
Precisamos colocar a universidade e as escolas a serviço desse projeto. Será por meio da união da juventude afetada por essa guerra, da ciência, do conjunto de profissionais da saúde e da assistência social e da população usuária de drogas – de todas as drogas – é que podemos enfrentar este cenário e apresentar saídas verdadeiras.
Ao redor de todo o Brasil, fomentamos a construção das Marchas da Maconha e dos movimentos antimanicomiais e anti-prisionais, que atuando lado a lado das mães brasileiras, incansáveis lutadoras contra a violência estatal, têm a coragem de denunciar esse sistema de barbárie.
Toda pessoa presa é uma prisão política. Porque não há nada mais político do que prender para torturar e para reiterar a descartabilidade dos corpos pretos para o capitalismo. Relegam a nós os postos de trabalho mais precarizados, as celas e as valas. Precisamos de um movimento estudantil comprometido com o abolicionismo penal para colocar um ponto final a este cenário e lutar por um mundo verdadeiramente livre, sem polícias, prisões e manicômios.
6. PEDAGOGIA CRÍTICA E POPULAR PARA ENFRENTAR O CAPITALISMO!
Com a evolução do capitalismo para um sistema mais globalizado e industrializado, tornou-se cada vez mais interessante qualificar a mão de obra trabalhadora, com o objetivo de que se tornasse mais útil para as classes dominantes, ou seja, mais produtiva, gerando mais lucros. Isso fez com que países como o Brasil passassem por uma expansão do acesso à educação formal, que deixou de ser uma exclusividade dos setores ricos.
Paralelamente a isso, a independência da América Latina permitiu florescer um grande conjunto de universidades e faculdades, que, embora elitizadas, permitiram relativa autonomia frente ao pensamento das potências colonizadoras. Com isso, a burguesia passou a incidir com mais força no controle das universidades, com o objetivo de controlar potenciais revoltas. Isso abriu um período, que vivemos até hoje, de forte controle dos principais atores do capitalismo mundial na educação – Banco Mundial, FMI, OCDE etc.
Não à toa, na América Latina, o movimento estudantil sempre foi parte da vanguarda dos movimentos de libertação, de resistência às ditaduras e ao imperialismo. Mesmo com sua composição social elitizada em décadas anteriores. A forma como as universidades se espalharam e se constituíram criou espaços de autonomia e debates muito frutíferos para a luta.
Desde o fim da ditadura empresarial-militar no Brasil, as cartilhas do Banco Mundial sobre como deve ser o projeto de educação são seguidas por todos os governos que tivemos, em maior ou menor grau.
O foco no ensino profissionalizante, técnico e mercadológico, a diluição da educação pública em um setor privado que foi financiado por bilhões de reais dos cofres públicos e o controle das universidades públicas são parte dessa política de uma educação domesticada.
A grande exceção foi a política de cotas, arrancada dos governos com muita luta e auto organização da negritude nas universidades.
Nos acostumamos a uma educação aprisionada. Na quadra da história que estamos inserides, cada vez mais precisamos defender o pouco que temos. O avanço das privatizações, os cortes orçamentários, a boiada legislativa e o avanço galopante do fascismo nos colocaram em uma situação de resistência. Especialmente no movimento estudantil, isso significou uma perda de horizonte de uma educação crítica e libertadora.
Não podemos esquecer que as especificidades de ser estudante estão diretamente relacionadas com a condição de estar em um ambiente de aprendizado.
As comunidades pedagógicas de escolas e universidades precisam voltar a ser protagonistas de seu próprio destino. Para além de resistir aos ataques, precisamos voltar a ter uma utopia, um olhar para uma educação que não esteja dentro das quatro linhas do capitalismo.
As universidades e o movimento estudantil precisam deixar de ser apenas arqueólogas das ruínas para ocuparem o posto de arquitetas do projeto futuro de educação. Precisamos, sim, lutar contra a militarização e privatização das escolas, por recomposição orçamentária e autonomia. Voltar a debater currículo, espaços educacionais, permanência e integração nos campi Brasil afora. As licenciaturas e a profissão docente devem ser integralmente repensadas. As atuais condições de controle, desgaste mental, jornadas extenuantes, salários insuficientes e plataformização não são nem mesmo sustentáveis nos marcos do capitalismo, sendo perversas e ineficazes. Mas muito mais do que isso: a educação crítica e libertadora deve transbordar as instituições de ensino.
É necessário que a nossa pedagogia seja também a das ruas, esquinas, morros, várzeas, campos e biomas. Que aprender e educar se tornem práticas constantes nas lutas e na sociedade. Que iniciativas de educação popular não se restrinjam a cursinhos pré-vestibular, mas se voltem para construir comunidade, coletividade e organização pelos rincões de um Brasil que sangra sem parar. Se a separação da humanidade e da natureza é base do capitalismo, ela deve ser questionada e tensionada a todo momento que seja possível. Por isso, precisamos de uma educação que seja uma construtora de ferramentas não para o capital, mas para a humanidade.
Somente currículos que incluam educação ambiental crítica e agroecologia darão conta deste desafio. Precisamos que a UNE e o movimento estudantil estejam à frente dessa luta. Acreditamos em uma educação que seja perigosa aos poderosos e uma pedagogia crítica e dialética. Que acima de tudo forme mentes pensantes, inquietas e inconformadas com o mundo em que vivemos.
7. NEM CONCILIAÇÃO, NEM MIGALHAS: A BATALHA POR UMA UNIVERSIDADE EMANCIPATÓRIA
Houve uma brusca e intensa transformação nas universidades no passado relativamente recente. Um imenso rio preto e pobre ocupou os corredores brancos e imaculados dos templos do saber das elites brasileiras.
Os 13 anos de vigência da política nacional de ações afirmativas demonstrou seu incontestável sucesso e fundamental importância. Houve um intenso fluxo de ingresso da juventude pobre e preta em espaços que antes não lhes eram permitidos.
Essa foi uma conquista importante dos movimentos sociais, da militância negra e de esquerda e gerou profundas mudanças nas universidades, sentidas cotidianamente por quem as frequenta.
Também é preciso destacar que, por outro lado, não vemos uma adaptação das universidades à sua nova realidade. Os currículos são pensados para outros sujeitos que não a classe trabalhadora, vinda de um ensino médio vítima de sucateamento histórico, que já vem desde a ditadura. O novo perfil universitário é de pessoas que trabalham o dia todo, que pedalam bike de Ifood, dirigem para a Uber, atendem ao público nos centros de telemarketing e, à noite, vão às universidades em busca da emancipação social e econômica prometidas.
São essas pessoas que terão o dobro do esforço para chegar ao nível de exigência, atingido com muito mais facilidade por quem sempre estudou nos melhores colégios, fora do país e viveu, desde sempre, a partir de ótimas condições materiais de alimentação, moradia, transporte e tantos outros acessos.
As universidades, elitizadas, ainda exigem conhecimento prévio de pré-cálculo de pessoas que precisaram dividir com colegas um livro de matemática rabiscado na escola, exigem idiomas e mais idiomas de quem veio de escola com o teto repleto de goteiras e furos de balas da polícia, exigem produção acadêmica, lattes e o latim todo de quem tinha na merenda escolar a única refeição do seu dia.
A experiência universitária trabalhadora, que acessa o ensino superior com a gana de quem agarra uma corda de salvação, é, em muito, diversa da camada que ingressa nos palácios do saber como um caminho natural de sua formação, um resultado óbvio de uma trajetória de educação formal elitizada e privada – a mesma seguida por seus pais e avós.
As universidades ainda não entenderam essa mudança, evidentemente pela precariedade das políticas de permanência, que deveriam ser o mínimo de sustentação e manutenção da classe trabalhadora estudante.
A expansão do contingente de pessoas trabalhadoras junto às universidades não se refletiu em uma expansão de políticas de permanência. Aumentou o número de pobres, mas os governos Dilma, Temer, Bolsonaro e Lula operaram intensos cortes no investimento em educação. Isso se reflete em menos bolsas, menos restaurantes universitários, menos moradia e, portanto, menos pobres na universidade.
O rio pobre e preto que entra pela porta da frente, orgulho da família, sai pela porta de trás quando a universidade não lhe dá condições de permanecer. Sai porque precisa trabalhar e ser parte ativa na composição de renda familiar, sai porque o currículo não lhe deixa avançar, sai porque a educação brasileira o expulsa.
As universidades públicas abriram uma fresta um pouco maior em suas opulentas portas para o ingresso de pessoas que antes nem sonhavam com os palácios de mármore das faculdades de direito ou ver os beckers dos laboratórios fora dos filmes.
Mas, na pequena fresta, ainda não passam as pessoas trans. Essas pessoas ainda estão de fora. Ainda estão no frio dos becos e vielas onde foram escondidas e marginalizadas, para serem encontradas pelos homens de bem, pais de família. E ainda estão nas estatísticas de violência e morte. Na academia, ainda são objeto de pesquisa e nunca as sujeitas que pesquisam.
Pautar o avanço das cotas trans é pautar um degrau a mais em uma caminhada que vem de longe, em direção ao fim da seleção de quem deve acessar conhecimento crítico em uma universidade pública.
Apesar dos avanços construídos com muita luta estudantil, é um fato que as universidades públicas estão, há muito anos, em modo de sobrevivência. Na defensiva para ter o mínimo pra pagar conta de luz. Não é de agora, mas também não é exclusivo dos governos de direita.
No primeiro ciclo petista, lutamos porque o Reuni botou gente pra ter aula dentro de container e chamou isso de “construção de novos campi”, lutamos contra a Ebserh e lutamos porque a Kroton-Anhanguera recebeu dinheiro público em quantias colossais para levar ao ensino mercadológico uma parcela da classe trabalhadora que deveria estar no ensino público, crítico e emancipatório.
Viemos para esse terceiro governo Lula, depois de um tsunami da educação inteiro contra a política bolsonarista e de muitas e muitas ocupações em numerosas escolas e universidades contra o teto de gastos do Temer.
O cansaço depois de tantas porradas e tanto tempo na defensiva são evidentes.
Mas, enquanto setores do movimento estudantil querem nos fazer acreditar que as migalhas que recebemos são suficientes e outros assumem posturas revisionistas para elogiar o Reuni, que tanto criticaram, para caber junto dos amigos governistas, é preciso que nossa resposta seja a luta. A luta por avanços e por mais do que temos agora.
As greves do último período demonstram com evidência que é preciso ir à luta, porque a fraca conciliação de classes pouco tem entregado à classe trabalhadora e muito tem servido à burguesia.
Mesmo sob greve de docentes e Técnicos Administrativos em Educação (TAE), as concessões do Governo Federal foram mínimas e insuficientes. O governo autoproclamado “dos trabalhadores” ofereceu intensa e desproporcional resistência. Provando, uma vez mais, seu descompromisso com a educação e com a classe trabalhadora.
É o mesmo governo que estipulou uma irreal e impraticável meta de déficit público zero para agradar a entidade incorpórea “mercado” – meta esta adotada, no mundo, apenas por Brasil e Argentina de Milei. Também impôs o arcabouço fiscal e, com isso, intensificou a precarização do ensino.
Em nada surpreende que este seja o governo que, recentemente, por decreto, impôs um dramático corte no orçamento da educação, reduzindo-o a um patamar que nem mesmo Paulo Guedes teve coragem.
Com apenas 1/18 do orçamento discricionário disponível até novembro, a maior fatia dos recursos fica represada para dezembro sob a falsa alcunha de um “contingenciamento” que é na verdade um corte. Tendo em vista que, na prática, não será possível garantir assistência estudantil, bolsas de estudo, fornecimento de luz e água, operação de restaurantes universitários e a manutenção essencial da infraestrutura com os fundos que sobram.
Posteriormente, o governo usou a velha tática de dar um recuo mínimo para aparentar democracia. Como se, desde 2003, o petismo não seguisse o script: austeridade absurda, majoritária da UNE simula uma resistência pro forma, governo faz leve aceno pré-combinado, majoritária se diz satisfeita e vitoriosa e o governo sai com a vitória que já planejava desde o início.
Uma jogada ensaiada de mais de 20 anos e, nesse 7×1, o prejuízo é nosso.
Mas os acenos à classe trabalhadora estão cada vez menores. Depois de um congelamento de R$31,3 bilhões, apenas R$340 milhões foram devolvidos. A conciliação de classes cada vez menos tem cara de conciliação e mais de governo meramente voltado aos interesses da burguesia.
As greves provaram que há muita batalha a ser travada neste governo. Mas, também, que só a luta unificada tem condições de ser o escudo de defesa da educação pública, gratuita, de qualidade e polo de combate às mudanças climáticas.
Apenas a organização da classe trabalhadora e a ciência, socialmente referenciada, construída por nós, com o objetivo em nossa emancipação e salvação da espécie, têm condições de impedir o colapso.
Não podemos contar com o governo de conciliação de classes que se propõe a perfurar a foz do rio Amazonas e nada tem feito para impedir o PL da devastação. Não podemos contar que este governo fará das universidades e da educação brasileira este polo de construção e articulação de luta climática.
E não podemos nos contentar, de forma alguma, com a luta ecossocialista resumida a instalar ar condicionado nas salas de aula.
Precisamos construir uma universidade que lute contra o racismo climático. Que prepare a sociedade para as multidões de refugiados climáticos. Uma universidade que produza alternativas e planeje uma verdadeira transição de matriz energética.
Cabe a nós a organização e a luta. Cabe a nós a luta por uma universidade com cotas para pessoas Trans, em mais um passo rumo a uma universidade do povo. Cabe a nós a construção de uma universidade de luta e polo de combate às mudanças climáticas.
Chega de migalhas e da conciliação que nos limita! Cansada dos cortes brutais, da defensiva constante e de uma universidade que ainda exclui quem tanto luta, a juventude trabalhadora fará dela a trincheira de uma nova realidade. Será o epicentro da luta unificada por avanços reais, da ciência emancipatória que questiona e revoluciona, e do farol irrenunciável para combater o colapso climático e construir um futuro que a tudo e a todes liberte, sem catracas, vestibulares e exclusões.
8. UNIVERSIDADES PRIVADAS E A HIPER-MERCANTILIZAÇÃO DO ENSINO: PELO FIM DA EDUCAÇÃO REGIDA PELO CAPITAL!
Ainda que nos últimos anos as universidades públicas tenham presenciado um ingresso expressivo de estudantes da classe trabalhadora, é nas universidades privadas em que estão as políticas educacionais para a parcela mais pobre da população.
Para analisar o processo de expansão do ensino superior privado, devemos nos voltar a projetos como o Programa Universidade para Todos (ProUni), o Financiamento Estudantil (FIES) e a Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI). Esses programas, implementados pelos governos do PT no início dos anos 2000, de fato promoveram o acesso expressivo da juventude trabalhadora ao ensino superior, no entanto, em sua totalidade, carregam uma série de contradições ao nosso projeto de educação – para além de instituições voltadas a um ensino profissionalizante, com uma formação pouco voltada para atividades de pesquisa, extensão, ensino crítico e emancipatório. Hoje, esses projetos contribuem para a mercantilização do ensino superior, numa política voltada para o enriquecimento das instituições de ensino privadas ⎼ os grandes oligopólios da educação.
Esses oligopólios regem o ensino superior por uma lógica empresarial, focada no lucro e nas demandas do capital, formando profissionais destinados a ocuparem postos de trabalhos precarizados ou a se depararem com um cenário de desemprego que, muitas vezes, é acompanhado de um processo de endividamento da juventude formada através dos programas de financiamento da educação. O sonho do diploma de graduação vira um pesadelo de dívidas imensas que afetam a juventude em diferentes âmbitos.
Os modelos de financiamento, reforçados pelo governo Lula III com a implementação do FIES Social, pouco tem compromisso com a expansão de um ensino emancipatório e destinam à classe trabalhadora vagas em instituições precárias, a serviço da exploração e dominação de classe. Assim, romper com os modelos de financiamento, bem como a hiper mercantilização da educação, deve ser uma tarefa central para o movimento estudantil.
É evidente que nossa defesa não passa pela extinção dessas políticas da noite para o dia. É necessário, no entanto, ter a coragem de enfrentar e interromper o desvio massivo de dinheiro público da educação para a iniciativa privada. Como coletivo de juventude revolucionário, nosso horizonte é maior que o alcançado por estes programas. Nosso projeto de educação é o de acesso irrestrito de toda a classe trabalhadora ao ensino superior brasileiro. Um projeto de universidade popular, que atenda ao conjunto da classe trabalhadora, sem que seja necessário seu endividamento ou encher os cofres dos “tubarões da educação”, que veem, no ensino superior, uma ferramenta de enriquecimento desenfreado e formação direta de uma mão de obra que possa suprir as demandas do mercado capitalista.
Nas instituições privadas há uma barreira antidemocrática que limita a organização dos estudantes e a articulação de docentes e demais funcionáries. Estruturadas em um modelo corporativo e hierarquizado, o setor privado dificulta as lutas por melhores condições de ensino e trabalho, em que profissionais da educação têm seus empregos ameaçados constantemente.
Bem como estudantes bolsistas lidam com a possibilidade de suspensão e, em casos mais extremos, o cancelamento de suas bolsas – há, portanto, uma parcela significativa de estudantes que ingressam no ensino superior que não chegam ao fim de sua jornada acadêmica.
Quando pensamos em uma universidade popular, não falamos apenas do acesso da juventude trabalhadora ao ensino superior, mas também da permanência qualificada desse conjunto de estudantes no ambiente universitário. Isso vai além de colocar as demandas do movimento estudantil na ordem do dia, é preciso também pautar o mercado de trabalho e entrelaçar as lutas.
As universidades privadas são marcadas por estudantes que enfrentam jornadas exaustivas em empregos precarizados. E que, no fim do dia, ocupam as salas de aula de maneira não-ativa, como receptores passivos de conteúdos mercadológicos, vítimas da exaustão imposta pela produtividade.
Este cenário é uma vitória do capital na educação, que negligencia sua dimensão crítica e fortalece uma formação tecnicista, gerando profissionais pouco questionadores, com uma visão de mundo produtivista, sem uma análise crítica do sistema ao qual são condicionades.
Nesse sentido, precisamos pensar em um programa maior – tirar das mãos do capital a gestão do ensino, colocar em debate um programa de transição para a estatização das instituições privadas. Uma alternativa radical, compromissada com as demandas estudantis e a valorização de cada profissional das universidades.
Nosso projeto de educação deve ultrapassar os muros das universidades, pensando a educação como uma ferramenta de emancipação e transformação social do mundo – e não há espaço para isso dentro da lógica do capital. É na educação pública, do ensino básico ao superior, e na rejeição à expansão dos oligopólios do ensino superior privado. É no fortalecimento do movimento estudantil e de profissionais das instituições privadas. Na ampliação das cotas trans, sociais e raciais nas universidades públicas. No enfrentamento direto à mercantilização da educação, construindo uma universidade pintada de povo, pautada pelo tripé ensino-pesquisa-extensão.
É nossa tarefa resistir ao projeto de educação do capital: contra a hiper-mercantilização do ensino, a saída está na luta radical!
9. RUMO À RUPTURA: O BRASIL ALÉM DO CAPITAL E DA CONCILIAÇÃO
Um país construído sobre um cemitério indígena, há séculos é marcado pela violência e exploração de sua fundação enquanto Estado-nação. Fruto da escravização e de continuados genocídios, o Brasil chega em 2025 como uma síntese representativa e resultado de um intenso colonialismo.
Síntese de um país desenhado a partir dos valores exploratórios do norte global. Com o objetivo de produzir e fornecer commodities ao centro industrial do capitalismo. Cristalizado em pensamentos como da vantagem comparativa inserta na divisão internacional do trabalho.
Um modelo de sociedade globalizada na qual o norte global retém a industrialização. Enquanto relega ao sul global o dever de fornecer os insumos, em uma dependência tecnológica.
Dependência esta que é a contradição e a barreira final à lógica desenvolvimentista. Não há uma evolução linear das forças produtivas ao estágio de “país desenvolvido” possível ao sul global, sem um rompimento com a divisão internacional do trabalho e com a posição de fornecedor de commodities.
Os projetos de industrialização nacional apresentados até hoje têm, paulatinamente, falhado, desde o século XIX. Em uma combinação de sabotagem internacional com a constante traição da burguesia local, desinteressada em um projeto político de emancipação brasileira.
O projeto estalinista, de um socialismo etapista, baseado na evolução das forças produtivas, altamente dependente de uma aliança com a burguesia local, em frente ampla, face ao capital internacional e ao imperialismo, tende ao fracasso. Diante do expresso interesse político da elite brasileira na reprimarização e na posição subserviente que o Brasil se encontra.
Ao mesmo tempo, lógicas liberais como a do livre mercado e do estado mínimo ganham força. Por meio de propaganda de valores individualistas e de empreendedorismo. Os países que alcançaram a posição de dominação global, apesar de terem o feito por meio de pesado investimento estatal, hoje propagandeiam o Estado mínimo ao sul global.
Valores como o desenvolvimento ou esse estágio de evolução capitalista, naturalizado enquanto objetivo global, são difundidos enquanto meta e caminho a ser seguido pelos países dependentes. Os ditos países subdesenvolvidos, ou em desenvolvimento, devem seguir as cartilhas do norte, empenhando-se no livre mercado e no Estado mínimo, para atingir este objetivo que não é seu. Em uma narrativa que oculta a impossibilidade de alcançar este patamar, pela necessidade da manutenção do sul global enquanto produtor de commodities que possibilitam a produção industrial e a acumulação capitalista no norte global.
Uma imensa roda dos ratos denominada capitalismo dependente.
Uma prisão da qual os governos petistas nunca fizeram reais esforços de ver livre o Brasil.
Seja pelos planos safra, de fortalecimento e financiamento do agronegócio, seja pelo projeto educacional voltado a atender os planos do Banco Mundial, ou, ainda, pela aliança com a burguesia nacional, abertamente interessada em seguir serviçal dos EUA.
São bastante evidentes os objetivos do projeto educacional construído pelo primeiro ciclo dos governos petistas. Observando a cartilha do Banco Mundial, impôs tecnicização ao ensino e acelerou projetos de privatização que objetivavam a mercantilização da educação.
Grande parte do que vemos hoje, das narrativas de empreendedorismo e de um ensino voltado a atender os interesses do mercado, foi fortalecida pelos governos petistas. A oferta insana de dinheiro estatal ao ensino privado, na forma do FIES e do Prouni, criaram o maior conglomerado de educação privada do mundo, a partir da fusão entre Kroton e Anhanguera, atualmente chamado Cogna.
O ensino privado, fortalecido nos governos petistas, tem como evidente objetivo o fornecimento de mão-de-obra especializada para o mercado de trabalho, um objetivo distante da emancipação das pessoas, a que deveria se voltar a educação. Ao invés de pessoas críticas, emancipadas e capazes de pautar seu destino, o petismo alimentou uma massa de trabalhadores prontos para seguir dando lucro à burguesia.
Essa é uma lógica que relega aos interesses flutuantes do mercado a vida da classe trabalhadora. Se nas décadas passadas era útil formar pessoas engenheiras, agora é útil que essas mesmas pessoas estejam atrás dos volantes da Uber.
O terceiro governo Lula promete cerveja e picanha, mas pauta uma reformulação do teto de gastos, na forma do Arcabouço Fiscal, em uma meta de déficit zero que tem como único objetivo agradar a Faria Lima ao ponto de que passem a colaborar com o governo. Um flerte por Lemann e seus brothers, feito às custas dos necessários investimentos públicos.
O governo, construído sobre nosso voto anti-Bolsonaro, resultou em um congelamento das verbas da educação que reduziu seu orçamento a patamares menores que os de Paulo Guedes.
No primeiro ciclo, ao menos, o petismo foi capaz de relegar à classe trabalhadora migalhas do intenso acúmulo que proveram à burguesia nacional e internacional. Neste terceiro governo Lula, nem mesmo as migalhas têm chegado às bocas famintas pedalando bike alugada do Itaú entregando pedidos de Ifood por 16 horas seguidas.
A retomada conciliação de classes proposta pelo petismo não tem, sequer, condições de se repetir. Não há capital suficiente e a contradição que a lógica capitalista tem imposto ao meio ambiente está chegando ao final do que nosso planeta é capaz de suportar.
Nas primeiras décadas do milênio, o dinheiro do petróleo foi capaz de garantir um mínimo aceno à classe trabalhadora, sob intenso custo ambiental. Neste momento, o petismo propõe explorar petróleo na foz do Rio Amazonas, sob o risco da extinção da vida humana na Terra, para tentar reprisar a proto-emancipação pelo capital que promoveram no início do século.
Porém, de nada servirá reprisar o acesso ao crédito e ao consumo, se não houver humanidade para dele aproveitar.
O projeto de conciliação de classes dá nítidos sinais de impossibilidade de repetição e de manutenção. O petismo tem atuado muito mais como gerente de crises, do que como o sorridente churrasqueiro que se propunha.
A lógica desenvolvimentista é insuficiente à emancipação da classe trabalhadora brasileira e o etapismo stalinista não tem qualquer chance de sucesso perante a divisão internacional do trabalho e ao colapso climático que se avizinha.
Pensar um projeto de Brasil, para além de nossa posição atual, impõe, necessariamente, um rompimento da contradição entre campo, floresta e cidade, na construção de uma sociedade pautada pelo ecossocialismo. Em que sua evolução seja construída a partir da completa emancipação humana, pelo fim de toda exploração e pela justiça social.
Um projeto de Brasil precisa ser pautado por uma mudança de cosmovisão que considere características socioculturais brasileiras e pela diversidade dos povos que aqui habitam.
Vem da força coletiva que brota nas margens, nos quilombos, nas ocupações, nas greves e nas aldeias. Ou rompemos com a engrenagem da destruição, ou seremos esmagades por ela.
O Brasil do futuro não cabe nos limites impostos pela lógica do capital e pelas ilusões de conciliação. É preciso reinventar o país com o suor dos povos originários, da classe trabalhadora e das florestas vivas. Não há saída sem ruptura — e não há ruptura sem luta organizada.
10. O MOVIMENTO ESTUDANTIL SERÁ TRANSFEMINISTA OU NÃO SERÁ
A luta por uma educação gratuita e emancipadora não pode ser apartada das diversas lutas travadas nos espaços universitários e fora dele. As necessidades materiais do corpo estudantil impõe a construção de uma unidade combativa que não segmente os enfrentamentos, compreendendo que a luta por educação e permanência são parte da luta feminista por melhores condições de reprodução da classe trabalhadora. Assim, demandar a construção de moradias estudantis, de restaurantes universitários, o aumento da quantidade e do valor de bolsas e o fortalecimento de uma política de cotas, pressionamos para que a universidade atenda aos interesses de reprodução des filhes da classe trabalhadora.
Nesse sentido, conjuntamente com a denúncia e o enfrentamento às inúmeras violências de gênero nos espaços formativos, o movimento estudantil deve se colocar como um instrumento da luta feminista por melhores condições de vida. Com isso, não estamos falando de qualquer feminismo, mas de um que seja ecossocialista, que esteja voltado aos interesses de 99% da população e não seccione a luta contra as opressões.
Não há como construir um feminismo que não combata as raízes da opressão de gênero inerentes ao capitalismo. É esse sistema que forja essas opressões ao impor que a família esteja em conformidade com tais desigualdades para produzir, por meio dos trabalhos reprodutivos, a mercadoria mais importante para o seu funcionamento: a força de trabalho. A isso se deve o grande interesse da extrema direita em criar uma moral familiarista capaz de proteger essa dinâmica, o que coloca a urgência de construirmos uma luta que ouse romper com os aparatos que sustentam esse modo de produção.
Nessa toada, a linha mais acertada é um feminismo ancorado na crítica sobre o gênero, comprometido com a tranformação social e que se pretenda anti-LGBTIA+fóbico e antirracista, uma vez que a oposição binária entre homens e mulheres não atende às demandas do feminismo e da sociedade que pretendemos construir. O “ser mulher” e a construção da mulheridade são históricos e forjados em disputas, excluindo e invisibilizando continuamente a existência de inúmeras pessoas. O movimento negro, há décadas, demonstrou como as experiências das feministas brancas não compreendem a complexidade do que é ser uma mulher negra.
Agora, mais do que nunca, é o transfeminismo que, ao questionar o “ser mulher”, faz o que o feminismo negro operacionaliza há anos: evidenciar o caráter histórico do gênero. A existência de pessoas trans (sejam homens, mulheres e não-binárias), continua a levar o debate de gênero para lugares que a categoria “mulher” não pode transpor em decorrência de suas limitações históricas. É por essa razão que, no país que mais mata pessoas trans, a extrema direita ataca constantemente essa população, dada a potência de seu combate aos elementos que sustentam o capitalismo como modo de sociedade.
Portanto, é uma das funções da universidade e do movimento estudantil incorporar a luta transfeminista e dar continuidade ao movimento de reivindicação de cotas trans, que já foram aprovadas em mais de 15 universidades. No entanto, é necessário avançar na construção de políticas de permanência para essas estudantes, bem como promover a desburocratização do nome social e a liberdade para usar os banheiros de acordo com a identidade de gênero de cada uma.
Somente com uma universidade que esteja à disposição das pessoas trabalhadoras na luta de classes que poderemos construir, por meio da unidade entre teoria e prática, uma educação voltada à emancipação. O movimento estudantil será transfeminista ou não será!
11. POR UMA UNIVERSIDADE ANTIRRACISTA! POR UMA CIÊNCIA PRETA E À SERVIÇO DAS CLASSES TRABALHADORAS!
As particularidades da formação social brasileira traz características singulares que posicionam a questão racial no centro da nossa estratégia. Pensar os rumos do movimento estudantil passa por colocar essa discussão na estrutura da nossa intervenção, assim como na construção de um projeto para educação.
O Brasil é inserido como colônia no capitalismo, sendo relegado a um lugar de dependência desde a sua fundação. A acumulação originária nas terras brasileiras foi essencial para o acúmulo de capital das potências europeias com o tráfico de pessoas escravizadas. O modelo econômico implementado baseado no plantation – na monocultura extensiva e com mão de obra escravizada – criou as bases políticas para um país dominado por grandes elites latifundiárias.
Numa abolição inconclusa, pessoas negras, hoje, experimentam, nas mais diversas esferas da vida social, o contexto de extrema precarização.
O trabalho forçado dá espaço, majoritariamente, a um assalariamento pautado pela superexploração do trabalho. Em um país que segue tendo suas taxas de lucro a serviço da burguesia nacional e internacional.
A monocultura se repagina no modelo agroexportador que nos coloca, não por acaso, com pouco privilégio de trocas. A partir de nossa posição na divisão internacional do trabalho, para atuar apenas na exportação de commodities, os latifúndios permanecem, em razão de uma reforma agrária não feita.
É sob essas condições que o rateio internacional do excedente econômico leva a maioria da classe trabalhadora brasileira, majoritariamente negra, ao auge da exploração e da opressão.
Não é à toa que a população negra, especialmente a juventude, assume majoritariamente os postos mais precários de trabalho.
O passado colonial se faz presente nas entranhas das relações sociais. A diáspora forçada de pessoas africanas foi pré-condição para a acumulação originária de capital que ergue este modo de produção capitalista. Foi, portanto, o lucro extraído do trabalho escravizado que financiou a revolução industrial e o capitalismo que a seguiu.
Não seriam diferentes as expressões do racismo dentro da educação e, principalmente, nas universidades. Basta recuperar o objetivo da criação das universidades no Brasil baseado no interesse de formar elites. A própria conquista de universidades públicas e a universalização do acesso à educação foram fruto da luta de classes.
As cotas raciais, demanda que tomou corpo nos anos de 1990 pelos movimentos negros e teve sua lei aprovada apenas em 2012 (após dois mandatos completos de Lula), caminhou para romper com esta composição branca das universidades. Os impactos são irrefutáveis. Tanto da perspectiva de acesso de pessoas negras, quanto da possibilidade de construção de novos saberes e de provocar noções até então cristalizadas em diferentes ciências que reproduziam sem questionamentos o padrão eurocêntrico da branquitude.
A política de fomento ao acesso de pessoas racializadas nas universidades, para além da necessária emancipação de indivíduos, trata, também, de um enriquecimento da própria ciência. O ingresso de pessoas racializadas como não brancas traz às universidades conhecimentos possuídos por essa maioria da população, sobre os mais variados campos do saber, desde história, direito, saúde pública, construção civil, urbanismo, realidade social etc.. Os quais, antes, não chegavam ao acúmulo científico das universidades brasileiras. O ingresso de pessoas racializadas nas universidades pluraliza e diversifica os saberes, ao mesmo tempo que torna a ciência mais socialmente referenciada e próxima da realidade brasileira.
Mais do que uma representatividade vazia e midiática, a política de cotas trata do enriquecimento da ciência brasileira. Uma representação da maioria da população e de seus conhecimentos, agora, em certa medida, agregados ao acúmulo científico brasileiro.
Por outro lado, esta política ainda está longe de, sozinha, avançar como mecanismo de reparação social. Segundo o censo do IBGE de 2022, a taxa de conclusão do ensino superior entre pessoas brancas foi de 25,8%, o dobro da registrada para pessoas negras. Além disso, cidades periféricas colhem muito pouco de avanço. É o caso de Belford Roxo (RJ), Santa Rita (PB), Maranguape (CE) e Francisco Morato (SP), em que menos de 7,5% da população com 25 anos ou mais possui diploma universitário. Também associada a uma lógica desigual e combinada, dentro das universidades há um desenho que expressa essa configuração.
Em cursos como Medicina, 75,5% dos graduados em 2022 eram brancos, enquanto apenas 2,8% eram pretos e 19,1% pardos. Já em Serviço Social, a presença negra é maior: 40,2% dos graduados eram pardos e 11,8% eram pretos. Isso se explica pela função social organizada pelo capital nas duas profissões.
O próprio descompasso entre a ampliação universitária e o maior acesso de pessoas pobres em relação às políticas de assistência estudantil é algo que constrói um contexto em que facilita a entrada, mas não garante a permanência sem enfrentar a expulsão. A defasagem das bolsas de permanência, com frequência à mercê de cortes e congelamentos, é central no debate sobre a expulsão de pessoas racializadas como não-brancas das universidades. Às pessoas que já são estruturalmente condenadas a trabalhar desde cedo se impõe a necessidade de laborar durante a graduação, como única forma de se manter na universidade, uma vez que as bolsas não dão conta de sua subsistência.
Ao mesmo tempo, mesmo sendo demandadas de manter empregos de período integral, subempregos plataformizados ou estágios superexplorados, às pessoas negras universitárias ainda é imposta a necessidade de performar desempenho acadêmico igual ou superior ao de pessoas brancas que tiveram acesso a um ensino básico de qualidade infinitamente superior e que não dependem do próprio trabalho para sobreviver.
A dinâmica da interação entre universidade x necessidade de trabalhar segue a anos-luz de distância da compreensão das reitorias e do governo. Tanto o é que, apesar da possibilidade formal e hipotética de ingresso por meio de vagas reservadas, não são raros os cursos em que estas permanecem sem candidaturas. Não por desinteresse, mas porque seguem existindo cursos elitizados de apenas período integral, ou apenas matutino ou vespertino, impedindo o acesso de quem precisa trabalhar.
Quantos cursos de medicina, psicologia, engenharias, odontologia ou mesmo nas humanidades seguem priorizando a branquitude ao ofertarem apenas turnos incompatíveis com uma jornada de trabalho e não haver bolsas em quantidades e em valores suficientes à sobrevivência digna de pessoas negras.
É, então, um fato que, apesar de o ingresso das universidades nos ter sido garantido pelas políticas afirmativas que conquistamos, as portas que antes nos eram fechadas converteram-se em portas giratórias em que entramos já sendo empurrades para fora.
As universidades não estavam preparadas para receber o povo negro. Afinal, o modelo colonial que se manteve razoavelmente estável por século sequer sabia que precisava se adequar à chegada de quem sobreviveu à senzala.
Mesmo hoje, ao debater permanência e impossibilidade de seguir na graduação, por diversas vezes, as reitorias propõem soluções individualistas de apoio pedagógico e psicológico. Os quais, apesar de importantes, tratam, nesta perspectiva, de adequar sujeites ao modelo ultrapassado de universidade. Não há terapia que solucione barriga vazia, aluguel atrasado, ensino básico em escola com goteiras e marcas de balas e fadiga de pedalar bike de Ifood.
A universidade se pintou de povo, mas suas estruturas seguem de Casa Grande.
O que precisamos é de luta que reconstrua as universidades a partir de outros marcos. Precisamos de um movimento combativo, radical e antirracista. Que se comprometa a lutar contra o racismo das universidades, sem se resumir à denúncia dos casos de desvio ético. Que lute contra o modelo racista ainda imperante nas universidades brasileiras.
Não basta estar dentro. É preciso transformar. A permanência do racismo estrutural nas universidades exige mais do que adaptação: exige enfrentamento. Que a juventude negra se levante, não para se adequar ao modelo que nos exclui, mas para derrubá-lo e construir um novo, popular, radical e antirracista.
12. LUTAR POR UM ANTI CAPACITISMO ANTICAPITALISTA!
Em um sociedade de classe, pessoas que desviam dos padrões impostos pelos poderosos sempre foram excluídas de processos políticos, econômicos e muitas vezes impedidas até mesmo de exercer o mínimo de sua existência.
No capitalismo, a opressão sofrida por pessoas com deficiência e pessoas neuro atípicas está diretamente conectada com a capacidade de ser produtivo nos moldes do capitalismo. Não importa o quão incríveis sejam as capacidades humanas de uma pessoa, se não estão inseridas no processo produtivo, será uma pessoa tratada como deslocada, fora do normal, desnecessária para o sistema, ou até mesmo um peso a ser carregado.
Nesse sentido, qualquer individualidade que não se encaixe nesse molde é tratada como patologia e as pessoas diferentes do modelo são impedidas de acessar até mesmo os direitos mais básicos.
No contexto das universidades, a história das pessoas com deficiência e neuroatípicas é contada pela exclusão. Mesmo o acesso à educação básica é árduo, há apenas poucos anos que os debates acerca da educação especial começaram a passar para um paradigma de inclusão.
Felizmente, as últimas décadas são marcadas por uma forte organização das pessoas com deficiência e neuroatípicas, que cada vez mais se colocam enquanto sujeitos de sua própria história, exigindo espaço nas mais variadas esferas da sociedade. Presenciamos o surgimento de coletivos auto organizados de PCDs e pessoas neuroatípicas na luta por seus direitos, como a superação de barreiras arquitetônicas, inclusão de textos produzidos por PCDs nos currículos e o uso de tecnologias assistivas que garantam sua real participação nos mais variados cursos.
Para além disso, a exclusão socioeconômica é uma forte barreira e uma das principais causas de expulsão de PCDs e pessoas neuroatípicas da universidade. Se já existe uma dificuldade de acesso à trabalhos formais, é ainda mais difícil trabalhos que possam ser exercidos durante a permanência em um curso. Lutas por melhores condições de bolsas, transporte gratuito, um bom funcionamento do Sistema Único de Saúde e contra os manicômios tem relação direta com as possibilidades de permanência de pessoas com deficiência e neuroatípicas nas universidades e precisam estar na ordem do dia da luta por uma educação anti capacitista.
E o nosso anti capacitismo, das juventudes anticapitalistas, deve ser profundamente crítico e radical. Lutamos pelas pautas materiais imediatas, como garantir que os prédios sejam acessíveis, mas também precisamos fazer uma disputa de modelo de sociedade, no qual a inclusão seja substituída pela universalização. Que cada vez menos fiquemos preses ao paradigma da adaptação, para que pensemos em estruturas, processos e espaços que possam ser acessados por todes.
Nas universidades, as pessoas com deficiência e neuroatípicas cada vez mais deixam de ser objeto de pesquisa para se tornarem sujeites. É papel da UNE organizar este setor do corpo estudantil, garantir uma política nacional de universalização do ensino, fazer chamadas nacionais para a aprovação e regulamentação de cotas para PCDs, bem como de lutar por uma educação crítica que tenha o anti capacitismo como eixo estruturante. Por fim, é imperioso que cada vez mais pessoas com deficiência e neuroatípicas estejam dentro da UNE e das entidades representativas do movimento estudantil. Nada sobre nós sem nós, há décadas, é a principal palavra de ordem do movimento anticapitalista e é especialmente importante na educação, uma das esferas de maior exclusão de pessoas que não correspondem ao produtivismo capitalista que enriquece as classes dominantes.
13. ECOSSOCIALISTA, ANTI-STALINISTA, INDEPENDENTE E DEMOCRÁTICA: A OPOSIÇÃO DE ESQUERDA QUE QUEREMOS PARA CONSTRUIR A UNE QUE PRECISAMOS!
É possível observar que a reorganização do movimento estudantil está diretamente conectada aos processos mais amplos de articulação das lutas nacionais e internacionais, não só em defesa de projetos para a educação, mas também das lutas mais gerais dentro da sociedade.
Não à toa, em outros períodos – como o da ditadura militar de 1964 e nas jornadas de 2013 – o movimento estudantil e a juventude foram protagonistas importantes na correlação de forças da luta de classes e isso segue acontecendo.
Apesar disso, hoje o movimento estudantil enfrenta grandes dificuldades de mobilização e articulação. Sem ignorar os efeitos devastadores da pandemia do COVID-19 – e como quase dois anos de ensino remoto aumentaram um abismo sob a construção orgânica de uma memória do movimento estudantil, do seu papel histórico e potencialidade para as lutas no Brasil e da renovação de quadros militantes –, acreditamos que vivemos agora algo para além de um “refluxo” das lutas estudantis, que vêm se estabelecendo mais como uma nova conformação para este movimento social.
Entendemos que alguns fenômenos são centrais para essa nova conformação, dentre eles: o avanço do neoliberalismo, impondo uma maior precarização da vida e das relações de trabalho, com ênfase na ampliação da uberização e dos subempregos com escala 6×1. Assim como a virtualização do ensino superior, o desmonte e a desmoralização das universidades e de suas políticas de permanência estudantil.
Mas, também, as ansiedades climáticas causadas por um contexto de crise planetária que vem retirando da juventude, cada vez mais, o direito a sonhar e se organizar por um futuro possível, diante da iminência de um fim do mundo acelerado pelo modo de produção e reprodução da vida capitalista.
Esse contexto, ao qual o movimento estudantil está submetido, junto ao concomitante avanço da extrema direita em vários países – fortalecendo projetos conservadores para a sociedade e estabelecendo uma condução neoliberal das políticas sociais e negacionistas às ciências críticas –, impõe uma urgência aos setores políticos que se propõe a construir projetos de sociedade radicais e emancipatórios que rompam efetivamente com a roda do capital. E em pensar as estratégias que efetivamente varram a extrema direita e seus projetos obscurantistas que vêm disputando a sociedade.
Assim, nos impõe a necessidade de construir um movimento estudantil independente de governos, reitorias e do movimento do capital.
Um movimento estudantil que esteja à altura das lutas e necessidades do conjunto de estudantes hoje, e portanto, que não tenha medo de disputar projetos radicais e que não rebaixe o seu programa e as demandas históricas des estudantes para as universidades e o ensino crítico.
A UNE, infelizmente, segue em um imobilismo perante as demandas históricas de nosso tempo. Limitando sua atuação de pressão ao governo a posicionamentos via rede social sem real mobilização correspondente, de nada adianta ser contra o arcabouço fiscal e o congelamento de verbas sem mobilizar em consequência a isso.
Quando muito, a majoritária da UNE se limita à sua velha tática de jogada ensaiada com o petismo: o governo impõe medida drástica de intenso retrocesso, a UNE se manifesta em contrário e o governo recua em parcela ínfima. A majoritária sai como “nem tão governista”, o governo como democrático e a classe trabalhadora com retrocessos em suas garantias e acessos.
O combate à extrema direita é usado para justificar o adesismo à conciliação de classes e o aceite de cargos no governo, ainda que a política proposta não sirva de nada no necessário e urgente combate ao fascismo. O “terceiro campo”, composto pela Juventude Sem Medo, direciona-se a uma amizade íntima e aponta para um ingresso na majoritária, sob o argumento de que a majoritária mudou, que agora não é mais canal de transmissão do governo e que os cargos e cadeiras são aceitos para combater o fascismo.
Mas, a verdade é que não foi a majoritária que mudou. Não foi a majoritária que mudou seu balanço sobre o Reuni e sobre a virtualização do ensino. Tampouco, foi a majoritária que mudou seu balanço sobre os governos petistas. Essa amizade se construiu por uma movimentação do terceiro campo em direção ao governismo.
Nesse cenário, hoje, nós do Ecoar – Juventude Ecossocialista no localizamos no bloco junto à Oposição de Esquerda e defendemos a aliança com as juventudes que se localizam em oposição à majoritária da UNE e são independentes frente ao atual governo federal, como A Rua é Nóis, Alicerce, Correnteza, Juntos, Pajeú, UJC-PCB, UJC-PCBR, Rebeldia e Vamos à Luta.
Acreditamos que a Oposição de Esquerda da UNE é o campo político que vem cumprindo o esforço árduo de disputar por uma entidade que volte a ser linha de frente nas lutas pelas garantias estudantis e pela construção de reformas universitárias que transformem esses espaços em locais mais democráticos, a serviço da sociedade e com maior investimento público.
É preciso unidade de quem ousa lutar com independência pela ampliação das nossas garantias, sem medo de apresentar as críticas necessárias a projetos de conciliação de classe que desfavorecem uma educação pública a serviço do povo. Não é possível orientar a construção de um movimento estudantil combativo e consequente, acreditando que a independência política de governos reformistas de conciliação de classe seja o motor de fortalecimento da extrema direita.
É exatamente do vácuo de alternativas políticas à esquerda — que sejam diferentes daquela vista pela velha política petista, que hoje, em seu 5º governo federal, mostra-se ainda mais incipiente para responder aos anseios da classe trabalhadora pela ampliação de cidadania e pela revogação de contrarreformas neoliberais importantes, aplicadas nos últimos anos nas políticas sociais — que a extrema direita encontra caminhos para se apresentar enquanto essa “nova alternativa”.
Ela se apropria de discursos que aparentam ser “radicais” e “antisistêmicos” com uma suposta nova roupagem que carrega os mesmos conservadorismos estruturantes de uma sociedade marcada por anos de colonialismo e intervenção imperialista.
Cabe, portanto, aos setores independentes da esquerda mostrar que há outras alternativas. Para além do conservadorismo da extrema direita e do reformismo petista materializado, sobretudo na figura messiânica do atual presidente Lula.
Por outro lado, entendemos também que hoje o campo da Oposição de Esquerda enfrenta dificuldades de expressar o seu potencial de transformação da UNE e lutas para a educação.
Em primeiro lugar, apesar de uma linha acertada sobre a preservação da independência política do movimento estudantil, a Oposição de Esquerda precisa superar a sua presente artificialidade, expressa na articulação do campo somente nos anos congressuais da UNE.
É nítido que vemos nos cotidianos das universidades uma consequente relação mais aproximada entre as juventudes que compõem esse bloco, contudo, é necessário avançar sobre mais marcos políticos, que aprofundem um projeto de educação defendido pela Oposição de Esquerda e que dêem corpo para a apresentação de um campo orgânico e sólido, de disputa ao projeto de desmobilização estudantil da majoritária, junto aos marcos de independência política aos governos e reitorias.
A Oposição de Esquerda precisa debater um projeto de educação anti neoliberal que possa se contrapor Brasil afora ao modelo apresentado pelo governo e que na prática é o mesmo desde a redemocratização. Precisamos de uma Oposição que tenha uma linha sobre o EAD, que possa voltar a apresentar propostas de financiamento da educação, que opine sobre políticas como o PNAES e sobre o novo Reuni. A Oposição de Esquerda sempre foi um ponto gravitacional para aqueles que acreditam em uma educação libertadora, crítica e perigosa. Precisa voltar a ser.
Mas além disso, é central que a Oposição consiga superar as culturas políticas presentes no movimento estudantil, adotadas como principais ferramentas de hegemonização da UNE pelos setores da majoritária. Os efeitos do burocratismo de anos da maior entidade de representação estudantil vem sendo devastadores para a conexão das lutas estudantis às bases do conjunto de estudantes e têm relação direta com uma concepção estalisnista das lutas sociais e do papel que podem cumprir. Em resposta ao hegemonismo, respondemos com democracia estudantil e de base. Nesse sentido, uma construção democrática e transparente são pilares essenciais para consolidar uma Oposição de Esquerda que esteja à altura das tarefas que nosso campo precisa cumprir. Também são estes os marcos que defendemos para a UNE e o movimento estudantil em todo o Brasil, devendo estar localizados no centro dos nossos esforços militantes das juventudes revolucionárias.
Por uma Oposição de Esquerda ecossocialista, independente, democrática e radical!
